As mãos grandes
grudaram na vitrina
unhas fungentas
depósito de imundices
dedos finos
sujos
olho vidrado
barba empapada
cabelo comprido
rosto envelhecido
o homem
olha para aqueles olhos
do outro lado do vidro
e não os reconhece
perdeu-se no tempo
que se esvaiu
sem que ele soubesse
ou percebesse
parece que foi ontem,
saiu de casa menino
menos de doze anos
muitos irmãos
mãe prostituída
pai marginal
e assim tornou-se
também marginal
poucas e boas passou nas ruas
gritavam
menino
menino de rua
ele dormia com um olho apenas
cansou de apanhar
ser abusado
ser desprezado
ignorado
esqueceu-se que existia
ou nunca existiu
a fome fê-lo esquecer do tempo
e o tempo tornou-se sobreviver ao outro dia
sol e lua
noite e dia
passa
passa tempo passante
pro menino
que nunca se tornou homem
ao menos não percebeu
de menino
a mendigo
percebe agora
na sua face
refletida na vitrine
face que não reconhece
face de um velho
e acaso..
pensou
menino de rua envelhece?
sorriu
pela ironia de sua desgraça
era ele mesmo
e ele mesmo não se reconheceu
quinta-feira, 26 de junho de 2008
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Amor
cai a noite
eu me seguro
na ponta da estrela
balanço
a lua ri
da brincadeira
no embalo
adormeço
sonho
com o calor
de um raio de sol
tua presença
me aquece
quando abro os olhos
ao amanhecer
eu me seguro
na ponta da estrela
balanço
a lua ri
da brincadeira
no embalo
adormeço
sonho
com o calor
de um raio de sol
tua presença
me aquece
quando abro os olhos
ao amanhecer
Respostas
estou como sempre fui
mas evolui
embora ainda vague
por aqui
buscando a salvação
nasci homem
cresci mulher
perdi-me em desencontros
segui caminhos que não conhecia
ouvia
as palavras
sons
zunidos
acreditava que vinham de mim
mas eram ecos
vindos de um não sei aonde
sempre a procura
de algo que eu não definia
do alheio
definia-me pelo olhar do outro
e eu,
sei lá aonde
perdi-me
se é que um dia encontrei-me
sem derotas
embora com muitas dores
desabo na terra
tombo
beijo a lona
e que alegria
grama
umidade
orvalho
perfume
contato
estranho
sinto-me
nasci
mas evolui
embora ainda vague
por aqui
buscando a salvação
nasci homem
cresci mulher
perdi-me em desencontros
segui caminhos que não conhecia
ouvia
as palavras
sons
zunidos
acreditava que vinham de mim
mas eram ecos
vindos de um não sei aonde
sempre a procura
de algo que eu não definia
do alheio
definia-me pelo olhar do outro
e eu,
sei lá aonde
perdi-me
se é que um dia encontrei-me
sem derotas
embora com muitas dores
desabo na terra
tombo
beijo a lona
e que alegria
grama
umidade
orvalho
perfume
contato
estranho
sinto-me
nasci
quarta-feira, 4 de junho de 2008
A outra
E tanto gosto do feminino
que todo meu corpo reage
e até minha roupa interage
com este encantamento
Em dias de muito frio
a timidez sai do armário
as luvas tocam as mãos
a touca segreda na orelha
a manta arrepia a espinha
a blusa agarra a pele ...dos seios
a calça gruda na cocha
e a bota come a meia
a língua bate nos dentes e a boca fica gemendo...
vício da dona
vício da dona
que todo meu corpo reage
e até minha roupa interage
com este encantamento
Em dias de muito frio
a timidez sai do armário
as luvas tocam as mãos
a touca segreda na orelha
a manta arrepia a espinha
a blusa agarra a pele ...dos seios
a calça gruda na cocha
e a bota come a meia
a língua bate nos dentes e a boca fica gemendo...
vício da dona
vício da dona
Metamorfose
a virgem se contorce
pecado
espera a morte
gozo que chega
o branco dos seus olhos funde-se com o preto
tintura sem cor
azul no céu
luz no coração
vermelho nos lençóis
menina que vai
mulher que chega
pecado
espera a morte
gozo que chega
o branco dos seus olhos funde-se com o preto
tintura sem cor
azul no céu
luz no coração
vermelho nos lençóis
menina que vai
mulher que chega
FOME
O lobo espera
a presa
chega o frio
a noite cai
ele adormece,
enquando o cordeiro não vem,
atrás de sua pupila passa a imagem
sonho que se apropria de sua vontade
faminta
uma mesa farta,
família reunida
crianças gargalham estridentemente
a casa está quentinha
as panelas fumegando
pai conversa com a mãe
crianças interrompem
pulam dando pequenos gritinhos
tudo é festa
tudo é saciedade
dorme o lobo, saliva e pensa..
na próxima vida
quero ser homem
Mas ele não vê
a cena continua sem
sua presença intrusa
no lado externo da casa
pequenas mãozinhas sujas encostam na vidraça
olhos miúdos
espiam
arregalados
miram a mesa farta
o lobo acorda com um ronco
o ronco da barriga do menino
fome
fome
fome que mata
saliva
na próxima vida,
sonha o menino,
quero ser lobo
a presa
chega o frio
a noite cai
ele adormece,
enquando o cordeiro não vem,
atrás de sua pupila passa a imagem
sonho que se apropria de sua vontade
faminta
uma mesa farta,
família reunida
crianças gargalham estridentemente
a casa está quentinha
as panelas fumegando
pai conversa com a mãe
crianças interrompem
pulam dando pequenos gritinhos
tudo é festa
tudo é saciedade
dorme o lobo, saliva e pensa..
na próxima vida
quero ser homem
Mas ele não vê
a cena continua sem
sua presença intrusa
no lado externo da casa
pequenas mãozinhas sujas encostam na vidraça
olhos miúdos
espiam
arregalados
miram a mesa farta
o lobo acorda com um ronco
o ronco da barriga do menino
fome
fome
fome que mata
saliva
na próxima vida,
sonha o menino,
quero ser lobo
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