quinta-feira, 26 de junho de 2008

Antropofagia

As mãos grandes
grudaram na vitrina
unhas fungentas
depósito de imundices
dedos finos
sujos
olho vidrado
barba empapada
cabelo comprido
rosto envelhecido
o homem
olha para aqueles olhos
do outro lado do vidro
e não os reconhece
perdeu-se no tempo
que se esvaiu
sem que ele soubesse
ou percebesse
parece que foi ontem,
saiu de casa menino
menos de doze anos
muitos irmãos
mãe prostituída
pai marginal
e assim tornou-se
também marginal
poucas e boas passou nas ruas
gritavam
menino
menino de rua
ele dormia com um olho apenas
cansou de apanhar
ser abusado
ser desprezado
ignorado
esqueceu-se que existia
ou nunca existiu
a fome fê-lo esquecer do tempo
e o tempo tornou-se sobreviver ao outro dia
sol e lua
noite e dia
passa
passa tempo passante
pro menino
que nunca se tornou homem
ao menos não percebeu
de menino
a mendigo
percebe agora
na sua face
refletida na vitrine
face que não reconhece
face de um velho
e acaso..
pensou
menino de rua envelhece?
sorriu
pela ironia de sua desgraça
era ele mesmo
e ele mesmo não se reconheceu

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Amor

cai a noite
eu me seguro
na ponta da estrela
balanço
a lua ri
da brincadeira
no embalo
adormeço
sonho
com o calor
de um raio de sol
tua presença
me aquece
quando abro os olhos
ao amanhecer

Respostas

estou como sempre fui

mas evolui

embora ainda vague

por aqui

buscando a salvação

nasci homem

cresci mulher

perdi-me em desencontros

segui caminhos que não conhecia

ouvia

as palavras

sons

zunidos

acreditava que vinham de mim

mas eram ecos

vindos de um não sei aonde

sempre a procura

de algo que eu não definia

do alheio

definia-me pelo olhar do outro

e eu,

sei lá aonde

perdi-me

se é que um dia encontrei-me

sem derotas

embora com muitas dores

desabo na terra

tombo

beijo a lona

e que alegria

grama

umidade

orvalho

perfume

contato

estranho

sinto-me

nasci

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A outra

E tanto gosto do feminino

que todo meu corpo reage

e até minha roupa interage

com este encantamento

Em dias de muito frio

a timidez sai do armário

as luvas tocam as mãos

a touca segreda na orelha

a manta arrepia a espinha

a blusa agarra a pele ...dos seios

a calça gruda na cocha

e a bota come a meia

a língua bate nos dentes e a boca fica gemendo...

vício da dona

vício da dona

Metamorfose

a virgem se contorce

pecado

espera a morte

gozo que chega

o branco dos seus olhos funde-se com o preto

tintura sem cor

azul no céu

luz no coração

vermelho nos lençóis

menina que vai

mulher que chega

FOME

O lobo espera

a presa

chega o frio

a noite cai

ele adormece,

enquando o cordeiro não vem,

atrás de sua pupila passa a imagem

sonho que se apropria de sua vontade

faminta

uma mesa farta,

família reunida

crianças gargalham estridentemente

a casa está quentinha

as panelas fumegando

pai conversa com a mãe

crianças interrompem

pulam dando pequenos gritinhos

tudo é festa

tudo é saciedade

dorme o lobo, saliva e pensa..

na próxima vida

quero ser homem

Mas ele não vê

a cena continua sem

sua presença intrusa

no lado externo da casa

pequenas mãozinhas sujas encostam na vidraça

olhos miúdos

espiam

arregalados

miram a mesa farta

o lobo acorda com um ronco

o ronco da barriga do menino

fome

fome

fome que mata

saliva

na próxima vida,

sonha o menino,

quero ser lobo