terça-feira, 29 de julho de 2008

Mimitismo

A noite atorou meu corpo

medo que me consome

escuridão

sou tão criança

nem sei como

só cresci no tamanho

de dia

trânsito

trabalho

responsabilidade

poder

mando

conhecimento

(tudo acumulado e reproduzido)

virei homem

(pensa meu pai)

um marido afetuoso

(pensa minha mãe)

um vencedor

(pensa a sociedade)

que ganha o bastante para sustentar duas família

(pensa minha esposa)

mas à noite viro-me do avesso

para poder me esconder facilmente,

dos temores

o silêncio me assusta

enfrento meus pensamentos

deixo de ser grande

e busco desenvolver-me

afetivamente,

lentamente

no meu tempo

tiveram pressa

em me ver homem

eu espichei

um corpo grande

com diminuta capacidade de enfrentar seus medos

resta-me

viver como os adultos

mesmo sabendo

ser ainda um menino,

camuflando-me

sempre, sempre com medo de ser descoberto

Redoma

A casa onde moro é minha referência
Um nicho
Habitat
Gosto das cores mornas das paredes
Dos móveis e sua disposição imóvel
Da cama onde me encaixo como a polca no parafuso
(certo)
Do sofá onde acoplo meu corpo
Gosto do abraço da toalha branca, após o banho
E muito..gosto muito dos meus lençóis transparentes
Porque não há no mundo, lugar como a minha casa
Tenho carinho
Amor
Afeto
Consolo
Compreensão
Nada há,
Além do meu eu e dos meus objetos pessoais
ocupando todo o espaço,
Reconheço-me
nos cantos
Meu
cheiro
(bolorento)
está no ar
e por isso,
não tenho medo
Talvez por isso, também, minha mente esteja tão fechada
Pensei,
talvez seja a hora
De romper este círculo
Rotineiro e viciado
Um liame de falsa segurança
De satisfação que parece plena
Pois plena não é
Verdade translúcida
Como ter plenitude sendo tão só e estático
Relógio que se movimenta
mas sempre de acordo com a
engrenagem
pré-fabricada
Converso com as paredes
(Elas me entendem)
E como não entenderiam
Se nunca contradizem
Não debatem
Não rebatem
Não argumentam
Talvez eu deva abrir as portas e as janelas
E deixar o cheiro de fora entrar
e o mofo sair
de dentro
Deixar que o imaculado seja tomado pelo impuro,
ar circulante
que a mente se infecte com o novo
Talvez este exercício faça com que eu seja menos eu
Mas por outro lado me ensine a ser um pouco nós

Nada Romântico

Quero pousar

no teu corpo nu

delicadamente

como a borboleta

na flor

desvendar sem fúria

os segredos dos teus caminhos

sentir-me apenas alma

abstração

ardendo

sem sol

na penumbra

perdendo-me

nas penugens finas

das tuas pernas

pétalas delicadas

buscar no aconchego do teu seio o pólem

e transfomá-lo como o faz a abelha

em mel

escorregar no suor dos teus poros

e por fim despencar no abismo

profundo dos teus túneis úmidos

flor com cheiro ácido

depois ao invés de fumar um cigarro

comer um pastel

terça-feira, 8 de julho de 2008

Em nome da fé

Na frente da igreja
havia uma grade
enorme
gigante
de ferro
e um grande portão
chaveado
uma mulher
quase nua
passou por ali,
à noite
pensando em se abrigar
dos perigos,
no teto sagrado
benzer-se
pedir proteção
ao menos
acalentar sua alma
alma madalena
com uma oração
chamou
José
Maria
João
Pedro
Simão
mas não a deixaram entrar
noite sem reza
noite sem pão
só ela e o pecado
seguiu a estrela
foi pra Belém

STATUS QUO

Vi um homem num casulo
feito de cobertores rotos
deitado na rua
mais precisamente na calçada
a noite foi gélida
e ele se protegeu como pode
trapos fétidos
panos velhos
pulguentos
deixados ali
por alguma alma
caridosa
enfileiram-se
empilham-se
os desprovidos
tentando aquecer-se uns com os outros
no pavilhão sem teto
da noite
o vento trinca a pele
fazendo,
no corpo,
fendas sanguinolentas
a umidade resseca o grito
o frio endurece o coração,
menos para o cão,
que é tratado como gente
e as gentes
apressadas
de manhã olham para eles
resmungam,
vagabundos,
dormem
quando todos trabalham
sujam nossas ruas
urinam
evacuam
emporcalham tudo
trancam nosso caminho
e quando acordam
é só para pedir esmolas
e o homem no casulo,
dorme,
à noite foi longa
sonha
a mãe alisava o ventre
e com ele conversava docemente,
fazia promessas
enquanto ouvia os resmungos do menino
em forma de chutes
quero vida
quero liberdade
quero igualdade
quero oportunidade
quero a expectativa
a mãe dizia
aqui fora,
você vai ser um príncipe,
vai ver lindos jardins,
em lindas casas
menino
menino
vai ler sozinho as estórias que te conto
teu futuro vai ser repleto de alegrias
tudo será fartura,
encantamento
vai acordar com o canto dos pássaros
e adormecer olhando o céu estrelado
e admirá-lo
como se fosse só teu
nasceu
o menino
e descobriu...
a casa era alheia
assim como os
jardins e a fartura
os livros de estórias ficaram distantes
nunca os viu
nada teve além do canto dos pássaros
e do céu
que é só seu
as promessas,
também eram sonhos da mãe,
que foi mais uma,
na cadeia alimentar
antropofágica
o pai,
nem sabe se existiu
e assim seguiu,
querendo
a cada novo dia
a igualdade prometida
e isso acontece
à noite
quando volta para o ventre
quando se encapsula,
no seu cobertor roto
e vira o homem num casulo
então pode tudo
até mesmo ser um igual
as gentes