Carrego no corpo,
hoje,
o peso
da rigidez cadavérica
daqueles que nunca amaram
ou nunca foram amados
eu não fui,
se fui,
tão pouco foi
que pouco ou nada senti
fiquei ali
embalando minha ausência de sentimentos
sem fúria
numa rede puída
Total inércia
de interagir
sei amar
ao menos,
pensei que sabia,
quando adotei
um animal de rua
ele
tanto quanto eu
dele
queria um tanto
de mim
diziam que preenchia os espaços
que a gente tinha vazios,
Mas ele e
eu
queríamos tanto
quanto tantos querem
sem dar
Assim como o corpo,
também o coração
Meus olhos secaram
de lágrimas
e,
desconfio que até minha alma partiu
para longe das vistas humanas
e por falar em vistas
das minhas
uma apagou
e o alcance da que restou
não vislumbra o horizonte
desaprendi
a olhar para frente
acostumei-me a olhar
para os pés
e o umbigo
Mas hoje,
olho
para cima
deitado aqui
nesta mesa
fria
do necrotério
pois deitado estou,
deitado para sempre ficarei
até que tudo apague
desapareça
consumido pelo ar e pelos vermes
e eu volte a ser o que sempre fui
matéria orgânica
e energia
aí
pode ser que eu
reascenda
volte do céu
numa grande explosão provocada
acima da cabeça dos humanos
como o faz
a chuva de fogos de artifício
e eu me caia,
leve,
sobre o corpo de cada um daqueles
que não amaram
talvez eu os cure da insensibilidade
ou ainda,
como energia renovada
eu os contamine
com um novo vírus
o vírus do amar o outro
como a si mesmo
sábado, 23 de agosto de 2008
sábado, 2 de agosto de 2008
Ceticismo
Noite difícil,
Suor na testa
Sonho febril
Sonhava que o filho
matava o pai
somente, porque ele falava
e como falava
Não matarás
Não furtarás
Não desejarás a mulher do próximo
Latejava, nas temporas do filho, ainda,
o mesmo sangue
que lhe sujava
as mãos
e o punhal
fúria
incontida
não suportou
aquela verborragia toda,
batalha entre anjos e demônios
quis ser órfão
negar crenças
guiar-se por seu próprio grito
como o morcego
vagando na escuridão
dos ensinamentos sagrados
que o pai,
chamava de trevas
não quis saber do outro
não quis dar a outra face
quis apenas ser uma criatura
a criatura
órfão
de pai e de mãe
esgueirando-se pelas ruas
que o pai,
chamava de devassidão
sem exemplos a serem seguidos
aprendendo
só
tão-somente
só,
cansado que estava,
de esperar o paraiso prometido
Eu vi,
naquele sonho,
o filho
negando
o pai,
três vezes
não quero
não quero
não quero
ser tua imagem e semelhança
e se o for,
e mato,
imito,
um ato,
que se tornou
ritual cotidiano,
nas ruas,
nas bombas de aniquilamento,
nas políticas de esquecimento,
nas pragas,
na desnutrição
e nas doenças
que passam ao largo de qualquer crença ou religião
Acaso, justifica-se o filho,
Não sou uma das faces do pai?
Pensei,
afasta de mim este cálice
preságio de anjos malignos
que se atrevem a entrar nos meus sonhos
sonho
sonho
sonho
E ouço o eco das palavras
vindas do paraíso
E Deus fez o homem,
imagem
e semelhança
Suor na testa
Sonho febril
Sonhava que o filho
matava o pai
somente, porque ele falava
e como falava
Não matarás
Não furtarás
Não desejarás a mulher do próximo
Latejava, nas temporas do filho, ainda,
o mesmo sangue
que lhe sujava
as mãos
e o punhal
fúria
incontida
não suportou
aquela verborragia toda,
batalha entre anjos e demônios
quis ser órfão
negar crenças
guiar-se por seu próprio grito
como o morcego
vagando na escuridão
dos ensinamentos sagrados
que o pai,
chamava de trevas
não quis saber do outro
não quis dar a outra face
quis apenas ser uma criatura
a criatura
órfão
de pai e de mãe
esgueirando-se pelas ruas
que o pai,
chamava de devassidão
sem exemplos a serem seguidos
aprendendo
só
tão-somente
só,
cansado que estava,
de esperar o paraiso prometido
Eu vi,
naquele sonho,
o filho
negando
o pai,
três vezes
não quero
não quero
não quero
ser tua imagem e semelhança
e se o for,
e mato,
imito,
um ato,
que se tornou
ritual cotidiano,
nas ruas,
nas bombas de aniquilamento,
nas políticas de esquecimento,
nas pragas,
na desnutrição
e nas doenças
que passam ao largo de qualquer crença ou religião
Acaso, justifica-se o filho,
Não sou uma das faces do pai?
Pensei,
afasta de mim este cálice
preságio de anjos malignos
que se atrevem a entrar nos meus sonhos
sonho
sonho
sonho
E ouço o eco das palavras
vindas do paraíso
E Deus fez o homem,
imagem
e semelhança
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