domingo, 16 de novembro de 2008

Reflexões

Nasci na era do lobo,


e outra houve,


que dele não fosse?


a matriz de todo pensamento,


sensível as movimentações humanas


está em encontrar respostas


para a crueldade que se estampa


nas faces



do dia dia, rotineiro



em busca da sobrevivência


e também para a docilidade


que surge quando a raça é ameaçada


somos irmãos e unidos na desgraça


porque quando estamos em desgraça


ameaçados


somos iguais


mas quando nos sentimos salvos


cultuamos um isolamento


e um individualismo


que nos faz lobos


toda era


é era do lobo


se não buscarmos ser


apenas homem

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sabedoria

Uma gargalhada

e mar adentro

fui

vestido branco

pés descalços

flor ingênua

no cabelo

pulseira de conchas

nos braços

sal na pele

tempero

regado ao luar

lembro quando

ainda criança

um homem prometeu

crescerás, mulher

e entenderás

as razões da tua vinda

a cada dia que passa

cresço e compreendo

vim ao mundo

para ser humana

e isso fui

bastante

mar que me olha

sereia me chamando

tomei o mar nos braços

sob o olhar da areia

fruto do mar

me tornei

porque faz bem pra saúde

já me dizia

aquele mesmo homem

Jardins e Flores

Foi na tua boca
que encontrei o doce
vi-me
um pouco flor
no teu jardim
sensação que acumulo
jamais se perderá
costumo guardá-los,
sentimentos latejantes no peito
com eles,
vou me construindo
para merecer,
na próxima vida
quem sabe
te encontrar novamente
naquele mesmo jardim

Divagações

Meus jardins se agigantaram

desde que aprendi a ver

o belo

e agora que sou comum dos homens

fico me perguntando,

como eles agem

como nós agimos

não tenho mais doenças

então não posso mais esconder-me

atras da velha desculpa

hoje me sei

e me projeto neste conhecimento

para saber um pouco mais do outro,

não que o outro me interesse,

pois cada ser é um

e nada eu posso dizer

para influenciá-los

acho que conhecimento vem

da gente mesmo

da própria forma de abordar

as coisas da vida

a vida é muito agradável

desagradável

e não achar as respostas certas

mas tenho para mim,

que não está no outro

a resposta

está em mim

por isso

palavras são sempre vazias

discursos são sempre contraditórios

então,

aponte a contradição

e eu vou pensar a respeito

domingo, 26 de outubro de 2008

Fatalismo

Submeter-me a minha crença
seria fácil
homens são
normalmente,
descrentes
incluo-me
mas vamos falar
sério
não há poder manipulável
pela racionalidade humana
estamos suscetíveis
e a margem
dos desígnios universais
sinto muito
não dominamos
as leis universais

Ser humano

Onde há homem há dúvida.

Consciência

A injustiça sempre foi meu maior temor
não o ser, pois
um corpo forte suporta
uma mente lúcida se adapta
e o conjunto sobrevive
Medo de cometer injustiças
meus olhos enxergam demais
minha mente lê,
coisas que ainda não foram escritas
sinto os movimentos do universo,
influenciando
os da terra
e rasgando meu corpo
então eu me arrepio
e sinto medo,
porque nem sempre sei
exercitar a hermenêutica dos sentidos
E como interpretar sensações?
já quis ser cega
surda
muda
e néscia
mas o pedido que fiz aos deuses
foi indeferido
então eu cambaleio num saber
que me atropela
e tateando
vou vomitando decisões
no fim
a fraqueza se esvai
na verdade
que se consolida
e eu agradeço
obrigada
senhor
pela consciência
humana

domingo, 21 de setembro de 2008

Na boca de um Átila, um discurso pode ser uma arma mortal.
Pra não dizer que não falei de flores. Rosa.

sábado, 6 de setembro de 2008

Fatalismo

A doçura do nascimento
está em esperar a morte

Border

Nasci num dia de chuva
na presença de muitos trovões
e raios suicidas
pouco sabiam eles,
quem anunciavam
anunciavam não um cristo
nem tampouco um anticristo
não revelavam um sábio
mas também nenhum jumento
apenas mais uma pessoa comum,
embora há quem diga,
que pessoas comuns não existam,
os dias da minha infância
eu os passei aos tropeços
escondendo-me atrás das árvores
para que ninguém me enxergasse
e assim foi,
tornei-me adolescente
e a árvore se agigantou para
pode esconder meu corpo
reforçado
pelos hormônios
cresci medroso
fraco
assustado
correndo e torcendo para que me esquecessem,
e nunca descobri por que
acho que foi a chuva do dia do meu nascimento
mas especialmente os raios
trago no peito
aquele desejo
que senti no primeiro suspiro de vida
o de jogar-me lá do alto como o raio
e estrondar
na terra como o trovão
o trovão assusta
mas o raio chamusca
e as vezes conforme pega
ele mata
me mata
estou cansando de existir
desde que nasci
sinto-me chamuscado

sábado, 23 de agosto de 2008

Extenue

Carrego no corpo,
hoje,
o peso
da rigidez cadavérica
daqueles que nunca amaram
ou nunca foram amados
eu não fui,
se fui,
tão pouco foi
que pouco ou nada senti
fiquei ali
embalando minha ausência de sentimentos
sem fúria
numa rede puída
Total inércia
de interagir
sei amar
ao menos,
pensei que sabia,
quando adotei
um animal de rua
ele
tanto quanto eu
dele
queria um tanto
de mim
diziam que preenchia os espaços
que a gente tinha vazios,
Mas ele e
eu
queríamos tanto
quanto tantos querem
sem dar
Assim como o corpo,
também o coração
Meus olhos secaram
de lágrimas
e,
desconfio que até minha alma partiu
para longe das vistas humanas
e por falar em vistas
das minhas
uma apagou
e o alcance da que restou
não vislumbra o horizonte
desaprendi
a olhar para frente
acostumei-me a olhar
para os pés
e o umbigo
Mas hoje,
olho
para cima
deitado aqui
nesta mesa
fria
do necrotério
pois deitado estou,
deitado para sempre ficarei
até que tudo apague
desapareça
consumido pelo ar e pelos vermes
e eu volte a ser o que sempre fui
matéria orgânica
e energia

pode ser que eu
reascenda
volte do céu
numa grande explosão provocada
acima da cabeça dos humanos
como o faz
a chuva de fogos de artifício
e eu me caia,
leve,
sobre o corpo de cada um daqueles
que não amaram
talvez eu os cure da insensibilidade
ou ainda,
como energia renovada
eu os contamine
com um novo vírus
o vírus do amar o outro
como a si mesmo

sábado, 2 de agosto de 2008

Ceticismo

Noite difícil,

Suor na testa

Sonho febril

Sonhava que o filho

matava o pai

somente, porque ele falava

e como falava

Não matarás

Não furtarás

Não desejarás a mulher do próximo

Latejava, nas temporas do filho, ainda,

o mesmo sangue

que lhe sujava

as mãos

e o punhal

fúria

incontida

não suportou

aquela verborragia toda,

batalha entre anjos e demônios

quis ser órfão

negar crenças

guiar-se por seu próprio grito

como o morcego

vagando na escuridão

dos ensinamentos sagrados

que o pai,

chamava de trevas

não quis saber do outro

não quis dar a outra face

quis apenas ser uma criatura

a criatura

órfão

de pai e de mãe

esgueirando-se pelas ruas

que o pai,

chamava de devassidão

sem exemplos a serem seguidos

aprendendo



tão-somente

só,

cansado que estava,

de esperar o paraiso prometido

Eu vi,

naquele sonho,

o filho

negando

o pai,

três vezes

não quero

não quero

não quero

ser tua imagem e semelhança

e se o for,

e mato,

imito,

um ato,

que se tornou

ritual cotidiano,

nas ruas,

nas bombas de aniquilamento,

nas políticas de esquecimento,

nas pragas,

na desnutrição

e nas doenças

que passam ao largo de qualquer crença ou religião

Acaso, justifica-se o filho,

Não sou uma das faces do pai?

Pensei,

afasta de mim este cálice

preságio de anjos malignos

que se atrevem a entrar nos meus sonhos

sonho

sonho

sonho

E ouço o eco das palavras

vindas do paraíso

E Deus fez o homem,

imagem

e semelhança

terça-feira, 29 de julho de 2008

Mimitismo

A noite atorou meu corpo

medo que me consome

escuridão

sou tão criança

nem sei como

só cresci no tamanho

de dia

trânsito

trabalho

responsabilidade

poder

mando

conhecimento

(tudo acumulado e reproduzido)

virei homem

(pensa meu pai)

um marido afetuoso

(pensa minha mãe)

um vencedor

(pensa a sociedade)

que ganha o bastante para sustentar duas família

(pensa minha esposa)

mas à noite viro-me do avesso

para poder me esconder facilmente,

dos temores

o silêncio me assusta

enfrento meus pensamentos

deixo de ser grande

e busco desenvolver-me

afetivamente,

lentamente

no meu tempo

tiveram pressa

em me ver homem

eu espichei

um corpo grande

com diminuta capacidade de enfrentar seus medos

resta-me

viver como os adultos

mesmo sabendo

ser ainda um menino,

camuflando-me

sempre, sempre com medo de ser descoberto

Redoma

A casa onde moro é minha referência
Um nicho
Habitat
Gosto das cores mornas das paredes
Dos móveis e sua disposição imóvel
Da cama onde me encaixo como a polca no parafuso
(certo)
Do sofá onde acoplo meu corpo
Gosto do abraço da toalha branca, após o banho
E muito..gosto muito dos meus lençóis transparentes
Porque não há no mundo, lugar como a minha casa
Tenho carinho
Amor
Afeto
Consolo
Compreensão
Nada há,
Além do meu eu e dos meus objetos pessoais
ocupando todo o espaço,
Reconheço-me
nos cantos
Meu
cheiro
(bolorento)
está no ar
e por isso,
não tenho medo
Talvez por isso, também, minha mente esteja tão fechada
Pensei,
talvez seja a hora
De romper este círculo
Rotineiro e viciado
Um liame de falsa segurança
De satisfação que parece plena
Pois plena não é
Verdade translúcida
Como ter plenitude sendo tão só e estático
Relógio que se movimenta
mas sempre de acordo com a
engrenagem
pré-fabricada
Converso com as paredes
(Elas me entendem)
E como não entenderiam
Se nunca contradizem
Não debatem
Não rebatem
Não argumentam
Talvez eu deva abrir as portas e as janelas
E deixar o cheiro de fora entrar
e o mofo sair
de dentro
Deixar que o imaculado seja tomado pelo impuro,
ar circulante
que a mente se infecte com o novo
Talvez este exercício faça com que eu seja menos eu
Mas por outro lado me ensine a ser um pouco nós

Nada Romântico

Quero pousar

no teu corpo nu

delicadamente

como a borboleta

na flor

desvendar sem fúria

os segredos dos teus caminhos

sentir-me apenas alma

abstração

ardendo

sem sol

na penumbra

perdendo-me

nas penugens finas

das tuas pernas

pétalas delicadas

buscar no aconchego do teu seio o pólem

e transfomá-lo como o faz a abelha

em mel

escorregar no suor dos teus poros

e por fim despencar no abismo

profundo dos teus túneis úmidos

flor com cheiro ácido

depois ao invés de fumar um cigarro

comer um pastel

terça-feira, 8 de julho de 2008

Em nome da fé

Na frente da igreja
havia uma grade
enorme
gigante
de ferro
e um grande portão
chaveado
uma mulher
quase nua
passou por ali,
à noite
pensando em se abrigar
dos perigos,
no teto sagrado
benzer-se
pedir proteção
ao menos
acalentar sua alma
alma madalena
com uma oração
chamou
José
Maria
João
Pedro
Simão
mas não a deixaram entrar
noite sem reza
noite sem pão
só ela e o pecado
seguiu a estrela
foi pra Belém

STATUS QUO

Vi um homem num casulo
feito de cobertores rotos
deitado na rua
mais precisamente na calçada
a noite foi gélida
e ele se protegeu como pode
trapos fétidos
panos velhos
pulguentos
deixados ali
por alguma alma
caridosa
enfileiram-se
empilham-se
os desprovidos
tentando aquecer-se uns com os outros
no pavilhão sem teto
da noite
o vento trinca a pele
fazendo,
no corpo,
fendas sanguinolentas
a umidade resseca o grito
o frio endurece o coração,
menos para o cão,
que é tratado como gente
e as gentes
apressadas
de manhã olham para eles
resmungam,
vagabundos,
dormem
quando todos trabalham
sujam nossas ruas
urinam
evacuam
emporcalham tudo
trancam nosso caminho
e quando acordam
é só para pedir esmolas
e o homem no casulo,
dorme,
à noite foi longa
sonha
a mãe alisava o ventre
e com ele conversava docemente,
fazia promessas
enquanto ouvia os resmungos do menino
em forma de chutes
quero vida
quero liberdade
quero igualdade
quero oportunidade
quero a expectativa
a mãe dizia
aqui fora,
você vai ser um príncipe,
vai ver lindos jardins,
em lindas casas
menino
menino
vai ler sozinho as estórias que te conto
teu futuro vai ser repleto de alegrias
tudo será fartura,
encantamento
vai acordar com o canto dos pássaros
e adormecer olhando o céu estrelado
e admirá-lo
como se fosse só teu
nasceu
o menino
e descobriu...
a casa era alheia
assim como os
jardins e a fartura
os livros de estórias ficaram distantes
nunca os viu
nada teve além do canto dos pássaros
e do céu
que é só seu
as promessas,
também eram sonhos da mãe,
que foi mais uma,
na cadeia alimentar
antropofágica
o pai,
nem sabe se existiu
e assim seguiu,
querendo
a cada novo dia
a igualdade prometida
e isso acontece
à noite
quando volta para o ventre
quando se encapsula,
no seu cobertor roto
e vira o homem num casulo
então pode tudo
até mesmo ser um igual
as gentes

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Antropofagia

As mãos grandes
grudaram na vitrina
unhas fungentas
depósito de imundices
dedos finos
sujos
olho vidrado
barba empapada
cabelo comprido
rosto envelhecido
o homem
olha para aqueles olhos
do outro lado do vidro
e não os reconhece
perdeu-se no tempo
que se esvaiu
sem que ele soubesse
ou percebesse
parece que foi ontem,
saiu de casa menino
menos de doze anos
muitos irmãos
mãe prostituída
pai marginal
e assim tornou-se
também marginal
poucas e boas passou nas ruas
gritavam
menino
menino de rua
ele dormia com um olho apenas
cansou de apanhar
ser abusado
ser desprezado
ignorado
esqueceu-se que existia
ou nunca existiu
a fome fê-lo esquecer do tempo
e o tempo tornou-se sobreviver ao outro dia
sol e lua
noite e dia
passa
passa tempo passante
pro menino
que nunca se tornou homem
ao menos não percebeu
de menino
a mendigo
percebe agora
na sua face
refletida na vitrine
face que não reconhece
face de um velho
e acaso..
pensou
menino de rua envelhece?
sorriu
pela ironia de sua desgraça
era ele mesmo
e ele mesmo não se reconheceu

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Amor

cai a noite
eu me seguro
na ponta da estrela
balanço
a lua ri
da brincadeira
no embalo
adormeço
sonho
com o calor
de um raio de sol
tua presença
me aquece
quando abro os olhos
ao amanhecer

Respostas

estou como sempre fui

mas evolui

embora ainda vague

por aqui

buscando a salvação

nasci homem

cresci mulher

perdi-me em desencontros

segui caminhos que não conhecia

ouvia

as palavras

sons

zunidos

acreditava que vinham de mim

mas eram ecos

vindos de um não sei aonde

sempre a procura

de algo que eu não definia

do alheio

definia-me pelo olhar do outro

e eu,

sei lá aonde

perdi-me

se é que um dia encontrei-me

sem derotas

embora com muitas dores

desabo na terra

tombo

beijo a lona

e que alegria

grama

umidade

orvalho

perfume

contato

estranho

sinto-me

nasci

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A outra

E tanto gosto do feminino

que todo meu corpo reage

e até minha roupa interage

com este encantamento

Em dias de muito frio

a timidez sai do armário

as luvas tocam as mãos

a touca segreda na orelha

a manta arrepia a espinha

a blusa agarra a pele ...dos seios

a calça gruda na cocha

e a bota come a meia

a língua bate nos dentes e a boca fica gemendo...

vício da dona

vício da dona

Metamorfose

a virgem se contorce

pecado

espera a morte

gozo que chega

o branco dos seus olhos funde-se com o preto

tintura sem cor

azul no céu

luz no coração

vermelho nos lençóis

menina que vai

mulher que chega

FOME

O lobo espera

a presa

chega o frio

a noite cai

ele adormece,

enquando o cordeiro não vem,

atrás de sua pupila passa a imagem

sonho que se apropria de sua vontade

faminta

uma mesa farta,

família reunida

crianças gargalham estridentemente

a casa está quentinha

as panelas fumegando

pai conversa com a mãe

crianças interrompem

pulam dando pequenos gritinhos

tudo é festa

tudo é saciedade

dorme o lobo, saliva e pensa..

na próxima vida

quero ser homem

Mas ele não vê

a cena continua sem

sua presença intrusa

no lado externo da casa

pequenas mãozinhas sujas encostam na vidraça

olhos miúdos

espiam

arregalados

miram a mesa farta

o lobo acorda com um ronco

o ronco da barriga do menino

fome

fome

fome que mata

saliva

na próxima vida,

sonha o menino,

quero ser lobo

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Fração de poder

Deus disse

este filho é meu
(homem)
e o feto disse

este útero é meu

o bebê disse

este berço é meu

meu pai

minha mãe

meu bico

meu brinquedo

meu caderno

meu..

meu..

umbigo

e eu

não sou nada,

só ateu

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Rotina
e eu busco
sei lá o quê
perco-me nas idéias alheias
nas vontades que não são minhas
nas necessidades dos vizinhos
penso que sou eu
penso que é meu
e o que eu quero?
silêncio
esqueçam-me
pra eu poder existir

domingo, 30 de março de 2008

Menino de Rua

Tinha 12 anos. Não sabia como nem quando acabou nas ruas.
Vivia nas calçadas. Ele e seu cão.
Recordava-se apenas de uma família numerosa. Muitas crianças, pai alcoolizado, mãe com feridas sangrentas nas faces. Nada mais.
Tentava ser simpático com as pessoas da rua. Já conhecia todos os que circulavam por ali, diariamente. Na sua rua.
Para ele, o mundo era gigantesco. Sua casa era valiosa, seu teto era o mais lindo, luminoso e estrelado.
Sofria apenas no frio, e quanto frio.
E à noite, porque era criança, justificava-se, ainda sentia medo.
Sujos eram seus cabelos, roupas, dentes. Magro, feridento, viciado, já nessa idade.
Com as moedas que ganhava, comprava a cola e não o coco colo.
Juntava tocos de cigarros e fumava, sem tragar, aprendera com o pai e de olhar nas ruas os adultos fazendo.
E aí garoto. Tudo bem? Perguntou-lhe um homem daqueles que via diariamente (nomes não sabia e pra que teria interesse em sabê-los?).
Sai uma moeda hoje moço?
Não hoje não, respondeu-lhe o homem.
Então um cigarro?
Cigarro garoto? Fumo mata você não sabia?
Mata moço?
Ficou em silêncio. Não sabia muito da vida ainda, era tão jovem. Mirou aquele homem de cima abaixo, roupa limpa, o perfume podia sentir da altura que estava, cabelo bem penteado, presença física saudável. O menino coçou a cabeça, olhou embaixo das unhas sujas, levou a boca algo que encontrou sob elas, olhou para os olhos verdes e límpidos do homem e perguntou-lhe com ar de dúvida:
E fome mata moço?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Amantes

Quando o sol discute com a nuvem
o dia amanhece chorando
nos cantos do tempo
ouve-se o sol
bradando em trovões luminosos
mulheres
mulheres
mulheres

quinta-feira, 27 de março de 2008

Ponto Final

Somos todos
vagantes
Há vagas
diz a placa
para ocupar o lugar dos que foram
Tanto faz morrer ou viver
tudo é retornável
tudo é reciclável
tudo é substituível
assim são os valores...dos homens
Morte é esquecimento
Vida é sensação boa... que passará
Prazeres que se esvaem como fumaça
como o sabor doce de um sorvete
é momentâneo
falsa ilusão de alegria
quando chega já se vai
e o depois..é quase nada, perdido em um canto qualquer da boca
como as palavras
que as bocas disseram
e os ouvidos ouviram
e a mente esqueceu
Talvez nem sequer lembranças nos restem
Acordar sem memória
Morrer sem ao menos ter nascido
Viver sem se saber
E quem somos nós ?
Passos sobre passos que já passaram
Nada é novo
Tudo é rastro
Sombra
Escuridão

Ausência

O amor foi minha maior miséria

sinto faltar o sangue

o ar

a vontade de viver

dor da mentira

ausência de quem nunca esteve

saudades

de quem jamais foi presente

e agora

o amor devora

meu corpo

minha alma

e ela..debate-se querendo

desencarnar

o corpo

prende

um suspiro

sem morte

Deus me mantém vivo

Viva...

não por ti

mas por alguém...

e eu sei quem?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Implosão

Enquanto o chão
come a parede
A mulher goza,
nos lençóis brancos.
Sob o olhar do vizinho
Tudo é dinamite...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Menino de Rua

Uma dona que passa sempre na minha rua perguntou-me um dia desses.

- De que você tem medo menino?

- Eu tenho medo do escuro e do relento

- Medo de pegar "peneumonia"

Quando a noite é fria

fico enrolado na calçada...

e no meu cão

Espero que ele, ao menos, não me deixe só

Quando clareia o dia

sonho não acordar

com um pontapé

Sonhava uma noite dessas

que minha mãe me chamava

acorda...tomar ...tomar café menino

Um dia já tive mãe,

eu acho,

nem sei

se nasci

pergunto-me como comecei a existir

se é que existo...

até fico surpreso,

se vejo...pois ninguém mais vê

- Menino, você sabia que é um anjo? Disse-me a dona.

Ela me disse que os anjos estão por aí

nas esquinas

das ruas

Atento a explicação, nos meus 12 anos, eu quis não ser anjo,

pra não sentir o duro da calçada

e quis ser tão humano

a ponto de ter

que dormir em lençóis limpos

e ter que comer comida quente

mas, segundo aquela dona eu sou apenas um anjo

em fase de transição...

transição dos outros

que devem aprender comigo

comigo ...e com o meu cão

pobre dona

Eu lhe disse

- Quer trocar dona?

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Nossa Dores

Às vezes minha dor é tanta
que eu deixo de ser humano e me torno coisa
coisa com dor...
dor latejante...
dor nas paredes solitárias do meu quarto...
e o branco (dos) se adentra no preto dos meus olhos...
e o sangue brota em forma de lágrima no meu rosto...
lágrima ácida...e eu fico corroído por mais uma ruga...
que marca...erosiva o tempo de vida que me resta...
que tempo...
interminável e longo tempo

Ponto Hoje

Gosto de movimentar algumas coisas, materialmente,

quando há modificações na área sentimental da minha vida.

Quando um amor vai embora.

Mudar a cama de lugar, os lençóis que a cobriam, a colcha

Mudo as cadeiras

o sofá

a posição da televisão

Tudo fica desorganizado...

Aos poucos, eu também me mudo

Fecho a porta (e o meu coração)

Aí posso não ter pressa

Quando a casa estiver novamente organizada...quando a casa estiver

eu de novo..eu achado

abro novamente a porta

e deixo o novo amor entrar

encontrando tudo novo

Tudo pronto para recomeçar

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

quando bebê,

sonhava bolas,

por falta de pensamentos,

de cognição,

de idéias

hoje, moça crescida,

ainda

sonho

m+AS

por excesso de pensamentos

e de .......idéias

as bolas

são outras
gosto de..do... dá+à noite
perereca cantando
..eu não gosto de grilo
nem daquilo....
duro
que as mulheres gostam
meu colchão de molas
me enrola
à noite
fiz voto de castidade
e o fato
é que com meu sapato
à noite
eu só mato baratas
mas gosto mesmo
é do canto das pererecas
à noite
e não dos grilos
ge (ladeira)
coisas gostosas
na mente
(sorvete)
gelado....
e eu
nem estou
na cozinha
mas sinto
o ar con (gelado)
ao lado
do marido
cansado
que ronca
falta a coisa
gostosa
que não
é
o
(sorvete)
o começo
é o fim
como o nascimento
já estamos morrendo

sábado, 9 de fevereiro de 2008

tarde abafada

o sorriso do sol

é ofuscado

por uma lágrima

da chuva

Médico/operador/que direito?

nasci para a paz
mas estou com uma espada na mão
imposição
leis
nem sempre estão corretas
guilhotina (legal)
homens com medo
mulheres desesperadas
e a emoção
que leva a ação
homens imprevisíveis
mulheres desnorteada
utilize a espada, gritam eles..
os delatores
como a guilhotina (legal)
para cortar cabeças
nasci para a paz
mas escolhi a profissão de carrasco
Um cão,
sem dono
menino de rua
que abana
a cauda
pedindo
esmolas

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

LUAR

Na cara da noite
o sorriso da lua

Transcender

Acredito sim...
mas morro de medo
de nada adianta pensar, a roda viva será apenas e repetidamente a mesma, enquanto um de nós não aprender a transcender, verdadeiramente. Que não surja, outro, pregador de peças, como muitos que estão por aí, cristos modernos, milagreiros sem imaginação, pastores de ovelhas sem alma livre, mas alguém que consiga realmente, sair do corpo, sem ter morrido.

Volta ao ovo

Sou livre
pra quê?
tantos gênios em tantas épocas diferentes
que i(novaram) dando ar de novo ao velho
e o que se vê a cada nova geração
é que a raça humana conti(nua) bolorenta
apegada simplesmente a instintos primitivos
sobreviver
multiplicar..
a fome.. e a mesmice
cérebros que não se aceleram
(embora as novas máquinas sim)
redundância de idéias
sem verdadeiras mudanças
corpos sãos...mentes doentes
quero voltar para o ovo... pra não virar omelete

VAZIO

PENSO
não sei para quê?
não serei semente
e se o fosse
seríamos um monte de sofredores
quem não pergunta
não se importa
não se importando
não está nem aí
e para que respostas
se a merda será sempre a mesma
independentemente do que a
interrogação responda
continue ovo... mas por favor....
um ovo abortado
nada de dar a luz

Sem rumo

Existe gente
diferente
não
existe apenas
um bando de fantasmas vagando
buscando tudo menos seus pensamentos
já não tenho dores
tirastes os meus flagelos
não tenho vícios
tenho poucas tentações
sou só mais um fantasma
antes da morte...
morro de tédio...tédio é o meu destino

domingo, 27 de janeiro de 2008

Fui

Quando eu partir
não vou dizer adeus
pois é assim que sou
não haverá lágrima
não haverá pensar um pouco
não haverá olhar para traz
eu já fiz muito
amando
já gastei meu verbo
detesto ser redundante,
ainda que em pensamento
paredes não ouvem
e eu tenho pernas
nervosas

É isso

Amor
é solidão
porque se espera
e quem espera cansa
prefiro ser
alguém que nada espera
prefiro estar sempre seguindo em frente

Vest(uário)

Árvores e
(frutos)
têm casca
Animais
têm pelos
penas
escamas
Homens
têm pele
Eu...
não entendo a moda

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Esperança

Um dia

outro dia

mais um dia

e, mais um dia

talvez amanhã eu seja feliz



*.*.*

Int(er)rogação

Entre os sonhos que tive,
nas mil e uma noites,
que já dormi,
o mais belo
foi acordar com respostas
todas as respostas

*.*.*

Liberdade de Pensamentos

"O homem zero, é aquele que não foi pensado, pensou-se".

Como fazer para conceber-me sem o conhecimento que recebi, sem a educação que me foi passada, sem a transmissão cultural, e com ela seus vícios. Como zerar o conhecimento e fazer-se ponto de partida, para algo novo, algo não pensado, inédito, mas não avasalador. É difícil ser criador, sem partir de um ponto do conhecimento. Não há conhecimento surgido do nada. Não há início sem reprodução. Não encontro o zero....temos partido do mil, dois mil, três mil. Nós não somos. Estamos, ficamos, repetimos.
*.*.*

Miséria

Pobre homem
Um homem pobre
De terra
De trabalho
De dinheiro
De t(udo)
Passa fome
Ela não passa
Sem teto
Apenas o céu
E um suspiro...
Enquanto a morte não chega

Cristos Modernos

Caminham nas ruas

Sem eira, nem beira

Passam fome

Mendigam

Estão desempregados

Prostituídos

Maginalizados

Ladrões

Aberações

É a história da evolução do homem

Mudam as culturas

Os tempos

Evolui a ciência

A história passa,

Muda de página

Eles não passam

Todo tempo tem seu Cristo

e todos ao final

serão crucificados

*.*.*

Sobre homens, lobos e cordeiros

Diariamente nascem muitas crianças
criança recém-nascida é destemida
até que alguém lhe apresente os limites
até que conheça a dor
dor concreta..no corpo
dor abstrata, que dói, mas não se sabe, de onde vem
apenas a lágrima que rola, ácida e corosiva na face
a dor pode ser compreendida, ante vista
e para isso, não necessariamente é preciso sentí-la
basta ser um bom observador
para aprendê-la
e assim, sabendo sua origem, poder evitá-la.
Entre as crianças que nascem muitas são cordeiros e outras tantas são lobos
nasci cordeiro, sorte ou azar
por isso, frágil, dócil, pacífico
observei...observei muito
e tive sorte
sobrevivi aos lobos
Ensinaram-me, no decorrer da infância, senti na adolescência e compreendi com a observação solitária
que lobos são cruéis, mas que também são fortes,
lobo é batalhador
lobo é vencedor
lobos são temidos...e por isso respeitados,
especialmente por cordeiros
ensinaram-me que lobos devoram cordeiros
então tentei manter-me atento
até que um dia aconteceu...
a primeira traição
o primeiro ato desleal
o abandono
a mágoa
a primeira "dor" inesperada
e pela primeira vez, eu ouvi alguém dizer:
"- era um lobo, um lobo em pele de cordeiro".
Tudo pareceu muito confuso
crescemos desconfiados, nós os cordeiros
já não podemos saber que é quem e como nos defender. Pois cordeiros são dóceis
Sei que sou cordeiro...pensei.
mas não sei quem são os lobos
então veio-me a idéia
ser um cordeiro na pele de um lobo...
um disfarce....uma máscara
contei a todos que eu era um lobo
e eles acreditaram
sobrevivi
tenho sobrevivido
não fui devorado, ainda
mas perdi-me no disfarce e sofro
sempre com medo de ser descoberto
...e morto
tive ganhos e perdas
ganhei porque sou respeitado e temido
a maior perda foi a da minha identidade
doce
tranqüiila
lenta
leal
da paz
desaprendi a ser cordeiro
e nunca consegui, verdadeiramente, ser um lobo
sou algo estranho
entre dois mundos..

Um começo

Na verdade. Acho que escrever é uma arte. Eu não sou art(eir0). Apenas vou dar início a um lançamento de iéias, de forma anônima, para sentir o prazer de escrever, e quem sabe, trocar idéias..sobre as idéias.