domingo, 30 de março de 2008

Menino de Rua

Tinha 12 anos. Não sabia como nem quando acabou nas ruas.
Vivia nas calçadas. Ele e seu cão.
Recordava-se apenas de uma família numerosa. Muitas crianças, pai alcoolizado, mãe com feridas sangrentas nas faces. Nada mais.
Tentava ser simpático com as pessoas da rua. Já conhecia todos os que circulavam por ali, diariamente. Na sua rua.
Para ele, o mundo era gigantesco. Sua casa era valiosa, seu teto era o mais lindo, luminoso e estrelado.
Sofria apenas no frio, e quanto frio.
E à noite, porque era criança, justificava-se, ainda sentia medo.
Sujos eram seus cabelos, roupas, dentes. Magro, feridento, viciado, já nessa idade.
Com as moedas que ganhava, comprava a cola e não o coco colo.
Juntava tocos de cigarros e fumava, sem tragar, aprendera com o pai e de olhar nas ruas os adultos fazendo.
E aí garoto. Tudo bem? Perguntou-lhe um homem daqueles que via diariamente (nomes não sabia e pra que teria interesse em sabê-los?).
Sai uma moeda hoje moço?
Não hoje não, respondeu-lhe o homem.
Então um cigarro?
Cigarro garoto? Fumo mata você não sabia?
Mata moço?
Ficou em silêncio. Não sabia muito da vida ainda, era tão jovem. Mirou aquele homem de cima abaixo, roupa limpa, o perfume podia sentir da altura que estava, cabelo bem penteado, presença física saudável. O menino coçou a cabeça, olhou embaixo das unhas sujas, levou a boca algo que encontrou sob elas, olhou para os olhos verdes e límpidos do homem e perguntou-lhe com ar de dúvida:
E fome mata moço?

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