Noite difícil,
Suor na testa
Sonho febril
Sonhava que o filho
matava o pai
somente, porque ele falava
e como falava
Não matarás
Não furtarás
Não desejarás a mulher do próximo
Latejava, nas temporas do filho, ainda,
o mesmo sangue
que lhe sujava
as mãos
e o punhal
fúria
incontida
não suportou
aquela verborragia toda,
batalha entre anjos e demônios
quis ser órfão
negar crenças
guiar-se por seu próprio grito
como o morcego
vagando na escuridão
dos ensinamentos sagrados
que o pai,
chamava de trevas
não quis saber do outro
não quis dar a outra face
quis apenas ser uma criatura
a criatura
órfão
de pai e de mãe
esgueirando-se pelas ruas
que o pai,
chamava de devassidão
sem exemplos a serem seguidos
aprendendo
só
tão-somente
só,
cansado que estava,
de esperar o paraiso prometido
Eu vi,
naquele sonho,
o filho
negando
o pai,
três vezes
não quero
não quero
não quero
ser tua imagem e semelhança
e se o for,
e mato,
imito,
um ato,
que se tornou
ritual cotidiano,
nas ruas,
nas bombas de aniquilamento,
nas políticas de esquecimento,
nas pragas,
na desnutrição
e nas doenças
que passam ao largo de qualquer crença ou religião
Acaso, justifica-se o filho,
Não sou uma das faces do pai?
Pensei,
afasta de mim este cálice
preságio de anjos malignos
que se atrevem a entrar nos meus sonhos
sonho
sonho
sonho
E ouço o eco das palavras
vindas do paraíso
E Deus fez o homem,
imagem
e semelhança
sábado, 2 de agosto de 2008
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