sábado, 2 de agosto de 2008

Ceticismo

Noite difícil,

Suor na testa

Sonho febril

Sonhava que o filho

matava o pai

somente, porque ele falava

e como falava

Não matarás

Não furtarás

Não desejarás a mulher do próximo

Latejava, nas temporas do filho, ainda,

o mesmo sangue

que lhe sujava

as mãos

e o punhal

fúria

incontida

não suportou

aquela verborragia toda,

batalha entre anjos e demônios

quis ser órfão

negar crenças

guiar-se por seu próprio grito

como o morcego

vagando na escuridão

dos ensinamentos sagrados

que o pai,

chamava de trevas

não quis saber do outro

não quis dar a outra face

quis apenas ser uma criatura

a criatura

órfão

de pai e de mãe

esgueirando-se pelas ruas

que o pai,

chamava de devassidão

sem exemplos a serem seguidos

aprendendo



tão-somente

só,

cansado que estava,

de esperar o paraiso prometido

Eu vi,

naquele sonho,

o filho

negando

o pai,

três vezes

não quero

não quero

não quero

ser tua imagem e semelhança

e se o for,

e mato,

imito,

um ato,

que se tornou

ritual cotidiano,

nas ruas,

nas bombas de aniquilamento,

nas políticas de esquecimento,

nas pragas,

na desnutrição

e nas doenças

que passam ao largo de qualquer crença ou religião

Acaso, justifica-se o filho,

Não sou uma das faces do pai?

Pensei,

afasta de mim este cálice

preságio de anjos malignos

que se atrevem a entrar nos meus sonhos

sonho

sonho

sonho

E ouço o eco das palavras

vindas do paraíso

E Deus fez o homem,

imagem

e semelhança

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